
EVENTOS
Sereias gritam para um presente que está saturado, chamando-o à atenção, ao passo que o desviam
do percurso automático, forçando-o a encarar a deriva social, política e emocional que se tornou
uma banalidade quotidiana. Carlos Bizarro, enquanto figura errante e deambulante, surge quase
como um anti-herói que caminha por paisagens reconhecíveis da precariedade, do desencanto e do
antilogismo. Nessa senda, a sua odisseia vivencial não é épica num sentido arcaico, mas antes
profundamente contemporânea. Esta pessoa vive num mundo feito de promessas de um futuro que
é constantemente adiado – e nunca como hoje este é o quotidiano de uma grande parte da
sociedade. Assim, a distopia não é um cenário longínquo, mas antes uma condição instalada: um
modo de vida. O colapso do mundo já aconteceu, nós é que não o queremos ver. E pior: queremos
normalizar esse colapso. Por isso, este novo trabalho dialoga com o percurso anterior do grupo; até
porque, em O País a Arder (2018), o fogo e as chamas eram metáforas de um país à beira da
combustão social e política. Em Sereias(2022), o grupo afirmava uma identidade estética e discursiva,
consolidando uma linguagem própria entre o (sub)campo português do (pós)rock experimental,
alternativo e interventivo. Agora, em A Odisseia de Carlos Bizarro, a obra surge diante de mim como
um terceiro inevitável movimento: mais denso onde a urgência dá lugar a uma observação crítica
mais amarga, mas mais livre. Tal como as sereias que habitavam margens e zonas de perigo dos
caudais, este disco posiciona-se num território liminar. Este é um disco sobre o escutar e sobre
igualmente o risco de o fazer. Num tempo em que tudo compete pela atenção, Sereias insistem na
urgência da criação artístico-musical enquanto gesto político-poético que nos lembra que, mesmo
em tempos distópicos, narrar este mundo de caos, de desigualdade, de crueldade é um ato
profundamente político.